Você não é o Batman: Uma reflexão

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Notícias de pessoas fazendo “justiça com as próprias mãos” vêm se tornando cada vez mais comum nos últimos tempos. Em meio a algumas conversas sobre o assunto, eu comecei a refletir e a misturar umas ideias sobre como cultura pop muitas vezes influencia em certas opiniões que a gente defende (Só penso em cultura pop/nerd? Talvez).

Aparentemente, eu estou sozinha nessa, mas a cada vez que sai uma notícia dessas, de pessoas comuns se transformando em uma espécie de vigilantes para suas comunidades e amarrando supostos bandidos em postes para espancá-los até a morte, mais assustada eu fico. Acontece que, na minha concepção, espancar uma pessoa por acreditar que ela fez algo errado, não é fazer justiça. Espancando essa pessoa você não está a corrigindo, você está se vingando dela, descontando sua raiva pela atitude daquela pessoa que você achou ruim. Vingança e justiça não são a mesma coisa e não podemos fingir que são.

Estamos muito acostumados com esse conceito do cara bonzinho que tem algo que ama tirado dele pelo cara malvado e acaba travando uma jornada assassina de vingança. É um conceito inserido na cultura pop, está em filmes, livros, séries, quadrinhos, está em todo lugar. E, em geral, essas são histórias legais e interessantes, somos presenteados com filmes excitantes, cheios de violência, sangue e tiro pra todo lado. O problema é que não vivemos em filmes, ao tirar uma vida você não vai deixar em paz as almas de seus amados, você apenas se tornará um assassino.

Talvez seja o conceito de vigilante que te encha os olhos, a ideia de poder defender você mesmo o lugar em que você vive, mas acontece que você não é o Batman e não vivemos em Gotham City. E mesmo que vivêssemos, note que esse plano do  Batman de acabar com o perigo e violência na sua cidade sozinho não é muito eficaz, o famoso homem morcego é um cara movido por amargura e certa sede de vingança, e não se vê melhorias em sua cidade desde que o homem assumiu o manto de herói. O que me faz pensar que talvez se Bruce Wayne, o órfão milionário por trás do manto de morcego, estivesse usando sua exorbitante fortuna em caridade, ajudando a reformar a cidade ou a melhorar as instituições de saúde mental (Gotham ta precisando) da sua cidade, de repente Gotham já era um lugar melhor. É que, assim, combater violência com violência não é um método muito bom para diminuir o problema de violência de um lugar.

Se mesmo assim você ainda achar que ser o Batman é legal e é isso que você quer ser para a sua comunidade, permita-me te lembrar que nem o Batman, o amargurado cavaleiro das trevas, espanca pessoas até a morte. Pode rolar umas porradinhas aqui e ali, um uso de força bruta acolá, violência contra personagens que claramente sofrem de problemas mentais seríssimos (Reforma nas instituições de saúde mental de Gotham, já!), mas sem matar ninguém. Muito pelo contrário, na verdade quem espanca pessoas até a morte é seu arqui-inimigo, o Coringa. Sim, o príncipe palhaço responsável por atrocidades como o aleijamento de Bárbara Gordon, o abuso e lavagem cerebral de sua antiga psiquiatra Harleen Quinzel, transformando-a na louca vilã Arlequina e muitos outros horrendos crimes.

Nos quadrinhos da DC tem uma história bem famosa de espancamento parecida com o que os justiceiros do nosso Brasil andam fazendo e sendo aplaudidos por fazer, me permitam contá-la. Nos anos 80 quando Jason Todd assumiu o manto de Robin (sendo assim o segundo, depois de Dick Grayson), o público não foi muito receptivo ao novo braço direito do homem morcego. O personagem era tão impopular que foi realizada uma votação em que fãs ligavam para um número e pediam para que ele morresse, sendo assim em 1988 foi lançada Batman: Morte Em Família. Nela, Coringa espanca o Robin de Jason Todd com um pé de cabra e o mata.

Então, ainda acha que o Brasil está formando uma Liga da Justiça local? Pois lembre-se antes de aplaudir essas atitudes que se Batman visse o que tem sido feito com bandidos de rua ultimamente, ele não daria um tapinha nas costas dos responsáveis e os convidaria para serem novos Robins, ele os jogaria na cadeia, talvez não antes de dar uma porradinha aqui e ali primeiro. Se você quer defender violência, não o faça sob o disfarce de justiça, esse argumento não é válido simplesmente por não ser real. Se você espanca pessoas até a morte, não importa o que elas fizeram para supostamente merecerem, você não é o Batman, você é o Coringa.

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Um comentário sobre “Você não é o Batman: Uma reflexão

  1. Republicou isso em Aprendiz De Resenhistae comentado:
    Então gente, hoje não teve resenha…
    Bem, final de ano escolar é realmente uma coisa horrível, e eu não to com tempo de nem de respirar, imagina de fazer resenha.
    Então, como forma de desculpas, quero compartilhar esse texto que vi lá no grupo Nerdfighters Brasil, e que achei maravilhoso.
    Até mais o/

    Curtir

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